Opinião

O meu cão fala, o teu não sei

Há uma certa vergonha social em admitir que se fala com cães.

Como se fosse um hábito secreto, guardado no bolso como um bilhete antigo.

Mas, olhando bem, não há nada de estranho nisto.

Estranho é falar com botões de elevador para ver se sobem mais depressa.

Estranho é ralhar com a internet como se ela estivesse à espera de motivação.

Estranho é pedir “força” à bateria do telemóvel, como se o dispositivo trabalhado por horas extras fosse agradecer.

Comparado com isso, falar com um cão é quase lógico.

E não é que se fale sobre “coisas de cão”.

Os temas são completamente desajustados à espécie:

trânsito, vizinhança, outros cães, dilemas que surgem sem aviso, ideias que nunca vão sair do papel, planos que não chegaram a ser planos.

Ele sabe tudo.

Não porque lhe digam — mas porque esteve presente em todos estes temas, desde sempre.

A conversa segue, muda de assunto, volta atrás, perde-se e reencontra-se.

Ele escuta como se cada desvio fizesse parte da rota.

Não interrompe.

Não pede tradução.

Nunca expressou desconhecimento sobre nada que lhe tenha sido dito.

Aceita o fluxo como quem já percebeu que não é preciso entender para acompanhar.

A graça está aí:

não há rigor, não há sistema, não há método,

e, apesar disso, há entendimento — ou algo suficientemente parecido com isso para funcionar.

E enquanto não chegam tradutores de IA capazes de transformar esta língua improvisada em subtítulos,

cada casa continua a falar no seu próprio idioma,

onde tudo pode ser dito

e nada precisa de fazer verdadeiro sentido

para fazer companhia.

Koala 

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