Opinião

Xixizinho Lunar

A primeira ideia lógica, se o objetivo fosse falar com marcianos, teria sido enviar um papagaio.

 Claro. Um animal que fala, repete, improvisa e articula frases com mais clareza do que muitos diplomatas.

 Se havia alguém capaz de iniciar diálogo interplanetário, seria ele.

 O problema é que um papagaio fechado numa cápsula durante horas acabaria a insultar a nave, a missão, a Terra e, inadvertidamente, toda a civilização marciana.

 Não era um começo promissor.

Podiam ter escolhido um gato.

 Os gatos têm aquela expressão de quem já visitou três galáxias e achou todas medíocres.

 Mas tentar convencê-los a seguir um manual de operações é inútil.

 E vestir um fato espacial a um gato seria a única missão verdadeiramente impossível da história da humanidade.

Uma tartaruga teria sido um gesto poético, mas zero prático.

 Chegaria à Lua quando a Lua já tivesse hotéis, cafés, influencers e trânsito.

Um porquinho?

 Inteligente, sociável, pragmático.

 Mas falta-lhe a competência essencial da exploração planetária:

 a capacidade de marcar território com convicção institucional.

E é por isso que sobra o cão.

 Sempre sobra o cão.

 Não porque é querido — isso, aliás, nunca contou para nada —

 mas porque é logicamente inevitável.

Um cão não precisa de saber falar com marcianos.

 Percebe-os.

 Chega a um planeta desconhecido, analisa a superfície com três passadas profissionais, fareja uma cratera como quem lê relatórios topográficos e resolve tudo com um xixizinho lunar colocado com precisão diplomática.

 É a maneira mais eficiente de dizer:

 “Terreno estávalidado. Podem avançar.”

As orelhas funcionam como antenas.

 As narinas como sensores.

 A cauda como radar emocional.

 E as patas como quatro rovers autónomos que não precisam de manutenção.

Laika não foi um acidente histórico.

 Foi a confirmação de uma verdade silenciosa:

 de todas as espécies disponíveis,

os cães eram os únicos que já pareciam saber o que estavam a fazer.

A história conta que ensinámos um cão a ir ao espaço.

 Mas a verdade, se formos sinceros,

 é que eles sempre nos ensinaram a chegar mais longe —

 nós é que demorámos a perceber.

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